Art Fértil
Adenomiose: saiba identificar os sintomas

Adenomiose: saiba identificar os sintomas

// Por Dra. Altina Castelo Branco

A fertilidade das mulheres depende principalmente de três fatores relacionados à saúde do sistema reprodutivo: o equilíbrio dos hormônios, a qualidade dos óvulos e a anatomia de útero e tubas uterinas preservada. A infertilidade feminina é causada por alterações nesses fatores, cujas origens são diversas: doenças, idade e outras condições, como laqueadura.

Entre as doenças, aquelas que desenvolvem formações tumorais, ainda que benignas, nas diversas camadas do útero, compostas por diversos tipos de células, e alteram a anatomia uterina e a secreção de alguns hormônios merecem destaque quando falamos em infertilidade por fator feminino, já que, suas fisiopatologias  podem além de dificultar a fecundação, podem também atrapalhar no processo de implantação embrionária ou o desenvolvimento do feto.

Alterações na anatomia uterina decorrentes de miomas, pólipos, endometriose e adenomiose podem interferir na fertilidade, provocando dificuldade de engravidar, favorecendo abortos de repetição e até partos prematuros, com possibilidade de óbito neonatal, além de problemas ovulatórios.

Identificar os sintomas da adenomiose pode ser fundamental para um tratamento precoce e com mais sucesso. Saiba mais sobre isso!

O que é adenomiose?

Entre essas doenças, a adenomiose é uma das mais recentes. Durante algum tempo, a adenomiose foi considerada uma variação da endometriose, sendo definida como uma doença apenas em 1972.

A adenomiose consiste no crescimento de tecido endometrial no miométrio, a camada intermediária do útero – situada entre o perimétrio, a camada mais externa, que tem contato com a cavidade abdominal, e o endométrio, a camada mais interna, em que acontece a implantação embrionária depois da fecundação.

O aparecimento de tecido endometrial no miométrio pode resultar em um útero aumentado, que microscopicamente mostra glândulas endometriais, que respondem ao estrogênio, assim como na endometriose.

Isso faz da adenomiose uma doença classificada como estrogênio-dependente e nos mostra que sua presença afeta também em alterações das concentrações séricas dessa classe de hormônios sexuais.

Trata-se de uma doença benigna de alta incidência, porém, devido à carência de parâmetros globais para seu diagnóstico, esses valores permanecem incertos. Ainda assim, alguns estudos estimam que a adenomiose atinja de 20% a 30% da população geral.

Sintomas de adenomiose e a infertilidade

Uma das dificuldades de identificar a adenomiose é que em cerca de 35% dos casos ela é assintomática. Nesses casos, o diagnóstico pode acontecer com base em resultados de exames de rotina ou quando a mulher procura atendimento médico devido a dificuldades de engravidar.

Quando apresenta sintomas, eles incluem sangramento menstrual abundante e prolongado, presença de dismenorreia (dor ao menstruar), ocorrendo durante e após o fluxo menstrual.

Na adenomiose, a formação de tecido endometrial no miométrio faz com que ele se distenda, aumente de tamanho e apresente deformidades. Esse aumento muitas vezes pode ser observado no próprio exame clínico, por palpação.

Cólicas muito fortes durante a menstruação

Por ser uma doença estrogênio-dependente, a adenomiose provoca um aumento da concentração sérica de estrogênios, o que leva a um aumento do peristaltismo uterino. Dessa forma, a alteração na capacidade de contração e distensão uterinas, que naturalmente expelem o sangue da menstruação, leva ao quadro de cólicas fortes e metrorragia (sangramento fora do período menstrual) típico da adenomiose.

Dor durante a relação sexual

Dependendo da extensão que a adenomiose ocupa no miométrio, toda a anatomia do sistema reprodutivo feminino pode ser alterada por essa doença, inclusive o canal vaginal, interferindo no prazer sexual e causando dor e incômodo nas relações sexuais, aumento da quantidade e duração do fluxo menstrual.

Como o tecido endometrial que se projeta em crescimento para o endométrio é também um tecido glandular, a produção de estrogênios fica aumentada de forma anormal.

O espessamento do revestimento endometrial da fase proliferativa do ciclo menstrual é feito pela ação dos estrogênios, que, quando aumentados pela adenomiose, aumentam também esse espessamento e resultam em fluxos menstruais mais intensos e duradouros.

A frequência e gravidade do quadro clínico da adenomiose estão sempre relacionadas com a sua extensão e cronicidade.

Por ser uma doença estrogênio-dependente, a adenomiose tende a retroceder após a menopausa, quando a produção dos hormônios sexuais da mulher, bem como sua capacidade reprodutiva como um todo terminam.

Investigação e tratamento da adenomiose

O diagnóstico da adenomiose começa no exame clínico, em que muitas vezes é possível observar um aumento relevante no volume uterino, porém somente os exames de imagem e, nos casos mais extremos, a biópsia podem oferecer conclusões diagnósticas mais acuradas.

Entre os exames de imagem mais úteis está o ultrassom transvaginal, que fornece imagens bastante precisas e apresenta boa sensibilidade e especificidade. Uma das imagens sugestiva da doença são áreas anecoicas (pretas) no miométrio, transformando a textura do miométrio heterogênea e o volume uterino aumentado.

A ressonância magnética também apresenta altas taxas de sensibilidade e especificidade e sua mais importante contribuição para o diagnóstico de adenomiose é diferenciar os leiomiomas dos adenomiomas, sendo os últimos prevalentes na adenomiose. Outro método de diagnóstico é a histeroscopia (endoscopia do útero) que ao visualizar imagens violáceas no endométrio pode dar o diagnóstico da doença.

O tratamento pode ser feito com objetivo de diminuir os sintomas, utilizando anti-inflamatórios ou contraceptivos orais combinados de estrogênios e progestagênios de forma contínua ou apenas progestagênios isolados e de forma contínua, o que leva à amenorreia prolongada.

Já a terapêutica farmacológica com análogos da GnRH demonstrou uma diminuição das lesões adenomióticas e, consequentemente, do tamanho uterino, levando a uma possibilidade de regressão da doença, além de atuar nos sintomas.

Quando o tratamento hormonal não é capaz de fazer cessar os sintomas ou quando a extensão da adenomiose é muito grande, é preciso intervir cirurgicamente.

Os procedimentos cirúrgicos para adenomiose podem retirar o excesso de tecido endometrial do miométrio, caso os adenomiomas não estejam tão internos ao músculo ou não sejam tão grandes.

Adenomiose e a reprodução assistida

Aos casos mais extremos, porém, a cirurgia para retirada do útero, a histerectomia total, pode ser a única forma de cessar os sintomas. Essa decisão deve ser tomada com bastante cuidado, pois, ainda que não inclua a retirada dos ovários e não interfira na capacidade reprodutiva da mulher, a remoção completa do útero inviabiliza a gestação, sendo necessária a cessão temporária de útero.

Nesses casos, o desejo de engravidar só pode se realizar com o uso da FIV (fertilização in vitro) com cessão temporária de útero, em que a mulher ainda pode fornecer os óvulos para fecundação, porém a gestação precisa obrigatoriamente acontecer no útero de outra mulher. Esse procedimento é relativamente comum e é regulamentado pela resolução do CFM de 2017.

A FIV pode ser indicada também para mulheres que trataram a adenomiose previamente, seja por via farmacológica, seja por intervenção cirúrgica, mas a mulher ainda tem dificuldade de engravidar.

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